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Artigo
Por Nilson Borlina Maia

A menção da palavra “perfume” normalmente acende no fundo dos nossos pensamentos um canhão de luz sobre um estereótipo: “um pequeno frasco, quase sempre de uso feminino”. Tudo bem, muitas mulheres e homens têm frascos de perfumes entre seus objetos de cuidado pessoal. Mas existem muito mais que mistérios e sedução nessa nuvem invisível que chamamos de perfume. Percebemos o perfume pelo olfato, ao qual, na verdade, prestamos muito pouca atenção em relação aos nossos outros sentidos. Talvez em função da vida que temos hoje, os estímulos visuais e sonoros parecem concorrer de modo mais intenso. Mas nem por isso o olfato é um sentido de menor importância e suas implicações podem se estender da economia à psicologia.

A atenção que dispensamos ao olfato não é propriamente pouca em termos absolutos, mas é sim, proporcionalmente menor à atenção que dispomos aos outros quatro sentidos: visão, audição, paladar e tato. Para entendermos um perfume é interessante entendermos um pouco também desses outros sentidos.

Chamamos de sentido as informações que detectamos e analisamos no cérebro para nos informarmos do nosso entorno ou ambiente. São informações necessárias para nos manter vivos. A evolução de nossa espécie nos aparelhou com olhos, ouvidos, língua, nariz e pele, que são órgãos muito complexos que nos permitem ter essas percepções para tomarmos as medidas necessárias frente a variações de concentrações de substâncias químicas, radiações, pressão e temperatura.

Apesar dessa aparelhagem ser muito complexa, nossos órgãos sensoriais são, de certa forma, limitados. A visão por exemplo: apesar das milhares de nuances de cores que nosso olho é capaz de detectar, todas elas são ondas cujo comprimento se situam numa estreita faixa de 400 a 700 nanômetros (1 nanômetro é 1 metro dividido por 1.000.000.000) que chamamos de luz visível. Ondas um pouco maiores são chamadas de infravermelhas. É possível até perceber um pouco do calor de algumas delas pelo nosso tato. Outras ondas maiores, que são muito mais freqüentes, passam por nós sem que tomemos o menor conhecimento. A não ser que fabriquemos outros aparelhos para detectá-las, como fazemos com as ondas de rádios, que podem chegar a dezenas de metros. Abaixo da faixa visível também somos completamente cegos para ondas que nos são prejudiciais como o ultravioleta ou até fatais como o raio X.

Porém, entre as ondas muito longas e as pequenas visíveis temos uma outra janela. Nossos ouvidos também nos trazem informações de ondas que se propagam com um comprimento entre 1,7cm e 17m. Isso equivale às agudas ondas que vibram 20.000 por segundo (Hz) às mais graves, de 20Hz. À medida que envelhecemos, nossos aparelhos auditivos começam a ficar cegos ou surdos para algumas faixas de onda, para a diversão dos jovens que fazem seus celulares tocarem tons nos limites do agudo audível na sala de aula sem que os professores algumas décadas mais velhos nada percebam. Nos shows ao ar livre identificamos sons emitidos por potentes amplificadores pelo tato. Mas a audição, como a visão, também é uma pequena janela que abrimos numa infinidade de ondas que não percebemos. Toda a riqueza do universo que nos encanta, percebemos por duas janelas de espectro incrivelmente reduzidas.

O tato é um sentido que nos livra de grandes complicações por perceber as variações de pressão e temperatura. Sensores espalhados pela periferia de nosso corpo informam nosso cérebro gerando dores providenciais para tirarmos a mão do fogo, nos protegermos do sol, e de outros “apertos”. Assim como a visão e a audição, o tato também é um aparelhamento que dispomos para detectar variações de natureza eminentemente física: a pressão, temperatura e comprimento de ondas.

Podemos fazer a analogia que o olfato e o paladar são nossos aparelhos químicos. Parece que sistematicamente damos menos atenção a esses sentidos do que a que damos aos aparelhos de detecção física. Até mesmo na linguagem percebe-se que preterimos o paladar e olfato aos demais sentidos.

Em diferentes culturas os comprimentos de ondas visíveis são divididos e batizados com nomes de cores bastante específicos. Não preciso dizer que a calça que visto enquanto escrevo está emitindo ondas da cor que percebemos quando estamos mergulhados a vários metros de profundidade no oceano. Basta dizer que é azul-escuro e o leitor terá uma noção bem clara (perceba o adjetivo de fundo visual) do que visto. Também posso dizer que o tom do meu telefone é um “lá“ médio que os músicos saberão precisamente a que me refiro e os não músicos podem imaginar o mesmo som sem mesmo estar ouvindo com grande aproximação. Assim como a temperatura ambiente que agora está em agradáveis 25 graus Celsius e da água do café que aqui em Campinas está fervendo a um pouco mais de 98 dos mesmos graus.

Entretanto, quando nos ocupamos do paladar e do olfato, temos mais dificuldades em nos expressar com precisão ou até mesmo em percebê-los. Para descrever o aroma de comida que está chegando ao escritório agora, próximo à hora do almoço, aumentando o volume de saliva em minha boca, não tenho substantivos tão específicos como verde, vermelho, azul, etc. Temos de emprestar palavras de outros sentidos e fazer uma espécie de exercício gramatical. Para descrever o cheiro de alho e cebola fritos na gordura de porco defumada, tenho de misturar, entre outros, a botânica com a zoologia na tentativa pobre de descrever um aroma tão comum no nosso dia-a-dia. A despeito da importância dos aromas para a manutenção da espécie, praticamente não existem substantivos para os aromas.

É comum chamarmos de “gosto” o que muitas vezes é aroma. Nosso paladar é capaz de identificar o doce, o salgado, o azedo e o amargo (recentemente o unami tem sido incluído). Papilas gustativas específicas são distribuídas em regiões bem demarcadas da língua. O doce pode ser sentido na ponta, o salgado em quase toda sua extensão, o azedo nas laterais e o amargo na parte mais próxima da garganta próximo à região que também provoca o vômito, o que é muito bom para não nos permitir engolir distraidamente muitos dos alcalóides e outros venenos da natureza de sabor quase sempre muito amargos. Nosso paladar é capaz de distinguir somente esses quatro ou cinco sabores. Assim podemos distinguir um sorvete de um limão somente com a língua, mas o gosto de uma feijoada é semelhante ao de uma bacalhoada: são igualmente salgadas.

O que faz com que separemos tão bem esses alimentos é o aroma que possuem. Distinguimos os dois pratos mais pelo olfato do que pelo paladar. Conseguimos diferenciar muito bem o cheiro do porco e do peixe. Muitas moléculas se vaporizam quando mastigamos os alimentos e são difundidas para dentro da cavidade nasal, onde numa pequena região chamada epitélio olfativo se combinam com enzimas que provocam sinais nervosos que nossos cérebros traduzem como cheiro. Apesar de sermos capazes de perceber mais de 10.000 cheiros temos muita dificuldade em nomeá-los.

Quando estamos gripados confundimos o gosto com os aromas. A profusão de secreções que encobrem o epitélio olfativo nessa situação impede que as moléculas voláteis cheguem em sua superfície e estimulem as terminações nervosas para sentirmos o cheiro. Costumamos então dizer que não estamos sentindo “gosto” nenhum. Porém não estamos sentindo os aromas dos alimentos. Mesmo gripados e de olhos vendados, continuamos capazes de distinguir se o remédio é azedo ou doce. Será muito mais difícil, sim, dizer se tem gosto, ou melhor, se tem aroma de limão ou abacaxi.

O olfato tem funções na manutenção da vida que vão além da alimentação e surgiu em espécies que estão na base evolutiva de grandes grupos de animais, inclusive nós. O olfato é processado próximo ao sistema límbico e complexo reptiliano, regiões bem profundas do sistema nervoso central. São estruturas presentes em espécies que surgiram há várias centenas de milhões de anos. Nos peixes e anfíbios ocupam praticamente todo o cérebro.

Também exalamos um tipo especial de moléculas voláteis chamadas de feromônios que podem estímular sexualmente o parceiro(a) que a respiram. Difundem-se de nosso corpo até o epitélio olfativo do outro, onde reagem como os demais cheiros, estimulam o cérebro e provocam uma vontade irresistível de compartilhar a responsabilidade da perpetuação da espécie com aquele “amor” de primeira vista. É possível que o “amor à primeira vista” seja apenas mais um daqueles outros 10.000 de aromas que podemos sentir.

A importância do olfato, mesmo antes do mapeamento das regiões cerebrais onde são processadas pelos neuroanatomistas ou da formulação de teorias a respeito da perpetuação da espécie pelos biólogos, já havia sido percebida pelos homens de negócio devido a importância econômica que encerra. Talvez os profissionais de propaganda, antes do surgimento do termo, tenham sido os primeiros a descobrir, empiricamente, essas ligações. Produtos comercializados pelos ingleses no auge do colonialismo eram aromatizados com óleo essencial de patchouli como forma de certificar e garantir sua origem oriental, pois a planta somente era cultivada na Índia naquela época. A posterior produção do óleo essencial nos países europeus possibilitou a falsificação de muitos produtos. Atualmente a propaganda usa os aromas como uma ferramenta mais complexa, mas ainda importante para vendas, e nos convence nos comerciais de televisão que se tivermos hálito de menta ou suarmos como madeira ou rosas, seremos felizes no amor. Basta comprar seu produto!

Hoje cada vez mais pessoas buscam aromas para realçar sua presença, estimular sua percepção pelo outro(a) ou encobrir outros aromas não tão agradáveis. O que no passado era privilégio de faraós, reis e suas cortes, hoje, a industrialização e o comércio em massa permitem a um grande número de pessoas o acesso aos perfumes. Bilhões de pessoas em todas as classes econômicas consomem aromas e perfumes, gerando um mercado, sem nenhum exagero, enorme.

No mundo todo as empresas que precisam acrescentar aroma em seus produtos contratam, ou têm em sua equipe, profissionais chamados perfumistas que desenvolvem os aromas ou fragrâncias a partir de matérias-primas básicas. Os óleos essenciais ocupam a maior parte das mais de 2.000 matérias-primas que os perfumistas costumam ter em suas “aromatecas” para misturá-las e combiná-las para criar seus perfumes e aromas. São verdadeiros artistas que em vez de misturarem tintas para pintarem quadros, ou palavras para criarem romances, usam sua sensibilidade e memória para misturam cheiros de diferentes famílias olfativas em diferentes proporções para criarem suas obras que pode ser um aroma de alimento para a indústria, um perfume fino de para uma única pessoa com condições de arcar com o preço elevadíssimo da exclusividade ou o cheiro de um sabonete ou desodorante popular usado algumas vezes por um número tão grande de pessoas que faz com que as pessoas, metrô ou ônibus de cada cidade no mundo pareça ter um cheiro próprio.

O mercado tanto de fragrâncias para perfumes e cosméticos como o de aromas para as indústrias de alimentos, farmacêuticas e outras, cresce cada dia mais, e à medida que outros setores da economia desenvolvem novos produtos, as indústrias de aromas e fragrâncias são impelidas a produzir, comercializar e crescer mais. Estimativas conservadoras falam de um mercado que cresce em média mais de 15% ao ano no Brasil de modo ininterrupto nos últimos 12 anos. No resto do mundo observa-se o mesmo comportamento, porém numa escala maior. Ajuda a aumentar ainda mais o mercado o acréscimo de aromas em produtos já existentes mas que não possuíam aromas, como livros, sapatos, pulserias de relógios, etc.

Para atender essa demanda, a indústria de aromas busca constantemente na natureza novas fontes de moléculas voláteis diversas. Óleos essenciais extraídos de plantas aromáticas são das mais importantes matérias-primas para essas indústrias. Algumas plantas aromáticas são cultivadas e outras são exploradas por métodos nem sempre sustentáveis e muitas espécies já foram colocadas em risco em função da sua exploração predatória. O Instituto Agronômico de Campinas, desde a década de 1930 dedica uma seção de pesquisa exclusivamente para o estudo de plantas medicinais e aromáticas.

O objetivo desse grupo é desenvolver técnicas agronômicas e variedades para a exploração econômica e ambientalmente sustentável. O Instituto possui uma coleção de mais de 200 espécies que foram introduzidas, transformaram-se em lavouras comerciais e, atualmente, são economicamente exploradas. São mentas, capim-limão, citronela, vetiver, entre outras. Técnicas de produção agronômica também são desenvolvidas para substituir explorações tradicionalmente predatórias.

Num recente trabalho de pesquisa desenvolvido em conjunto com uma pequena empresa de destilação de óleos essenciais do interior de São Paulo, o IAC viabilizou a produção do linalol natural a partir do óleo essencial de manjericão. O produto já é aplicado em alguns perfumes substituindo com a mesma qualidade do linalol utilizado na perfumaria fina, cuja extração dos troncos das árvores de pau-rosa levaram a espécie à situação de risco e inviabilidade econômica.

Para o desenvolvimento dessas e outras técnicas, o Instituto Agronômico conta com equipe multidisciplinar formada por especialistas de várias áreas do conhecimento, capazes de desenvolver desde técnicas agronômicas apropriadas ao plantio, cultivo, manejo (fitotecnia), desenvolvimento de variedades especializadas na produção de substâncias específicas, adaptadas a diferentes regiões e resistentes a doenças. A equipe é capacitada também para fazer análise e quantificação dos compostos químicos das plantas aromáticas.

Esse é o início de um trabalho que necessita percorrer uma longa e ramificada cadeia de produção até chegar ao consumidor final. As indústrias de alimentos, de fármacos, entre outros a de perfumes são, juntamente com o consumidor, os beneficiários desse processo que pode acabar como “um pequeno frasco, algumas vezes, de uso feminino”.


Nilson Borlina Maia é Pesquisador Científico de Plantas Aromáticas e Medicinais do Instituto Agronômico de Campinas e Assessor Científico da Lináx - Óleos Essenciais.

http://www.comciencia.br/comciencia/?section=8&edicao=28&id=326