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Por Maria Izabel de Souza Lopes

"Nada (...) nos pertence, só o tempo é nosso"
(Seneca - A amizade)


Já há algum tempo vem-se alertando sobre os efeitos da velocidade na vida profissional e social. Fazer tudo rapidamente dá uma sensação de que não se deve perder tempo. Reportagens que abordam excesso de trabalho, consumismo, felicidade, qualidade de vida revelam novos problemas e novas soluções. Todos os problemas apontam como vilão o trabalho, seja o excesso ou a falta dele.

Tornou-se o tempo de trabalho e não mais o tempo de vida. O depressa, o rápido torna-se sinônimo de eficiência. Severa reestruturação dos hábitos, inicialmente de trabalho depois da própria vida. O tempo aparece, então, como devorador, desfigurador, tirano, cegador de vidas. Dominar ou controlar o tempo para “ganhar tempo” ou “poupar tempo”, tornou-se bem moderno.

No mundo da velocidade a informação chega aos borbotões e processá-la é terrivelmente fatigante. O amanhã está se tornando hoje com uma velocidade assustadora. E o passado já foi consumido pelo tempo. As conseqüências já se fazem sentir: sintomas e doenças como estresses, depressão, dores musculares, ansiedade, agitação e desconcentração, cansaço extremo, já se tornaram um problema de saúde pública decorrente da vida acelerada bombardeada com intensos apelos ao consumo e a resultados.

O movimento inverso, a busca por uma redução dessa velocidade, a retomada e o controle do tempo pelas pessoas já são sentidos de várias formas: pessoas que resolvem mudar o ritmo de sua vida repensando a relação lida e preguiça, reeducando o consumo, desacelerando o tempo de alimentação, modificando o ritmo de suas atividades. A busca pela qualidade de vida também vem provocando um movimento, ainda que tímido, de certos segmentos sociais que se deslocam para cidades menores, que oferecem um ambiente mais saudável, seja do ponto de vista social ou natural. Predominam nesses grupos, por enquanto, os aposentados com boa renda e executivos.

A queda de braço do ritmo frenético do tempo exaustivo de trabalho com o tempo livre é uma novidade. Tema quase tabu mais afeito às discussões acadêmicas, hoje aflora na área de saúde e no ambiente de trabalho para todas as camadas sociais. As políticas de qualidade de vida no trabalho passam pela necessidade de equilíbrio entre o tempo de produção profissional com o tempo dedicado às relações sociais e familiares. Já não se trata mais de lazer paliativo como compensação do esforço alienante do trabalho, mas de um novo estilo de vida.

O custo social e econômico de um tempo melhor distribuído tem sido objeto de estudos e pesquisas. Programas de atividades físicas ou orientação e opções de lazer têm sido recomendados nas empresas públicas e privadas que estimulam a realização de cursos, viagens, práticas esportivas, passeios culturais como visitas a museus e exposições, freqüências a cinemas e teatros. Tem sido uma prática tais empresas disponibilizarem salas de descanso, bibliotecas multiuso para a fruição de seus funcionários. Funcionários com a cultura taylorista-fordista estão dando lugar a funcionários de ação positiva, propositiva e criativa. Busca-se com isso associar qualidade de vida e vida produtiva e minimizar custos de saúde pública oriundos das doenças do trabalho.

A formação da consciência cultural, social e política é necessária a um mundo que vive da inovação permanente, em constante revolução. Portanto, saber dosar a velocidade dessas mudanças é hoje o maior desafio. As pessoas deverão ser educadas para lidar com o tempo, com as informações, com as ações e intervenções.

Os workaholics são os ícones desse ambiente da velocidade. A expressão “não tenho tempo” já foi mais prestigiada no passado. Revelava a importância dada a uma pessoa de “agenda” cheia, acompanhada com laptops , celulares e outros acessórios tecnológicos portáteis. Muitos dos que são engolidos nessa velocidade digital já começam a se preocupar com a sua felicidade.

Entretanto, o tema tempo livre ainda é entendido com muito preconceito. Mas também é preciso notar que tal situação não pode ser aplicada a todas as pessoas, a todos os trabalhadores. Ainda temos contingentes enormes excluídos socialmente. Ao mesmo tempo há ilhas de extrema modernidade que precisam ser observadas e nelas cabe a preocupação central do tema desta exposição. As situações opostas são, na verdade, contradições de um sistema perverso que mais exclui do que inclui. E é nessa contradição que as análises e intervenções devem acontecer.

O tempo social, que ainda é predominantemente analisado, ainda é o tempo de trabalho. Todo processo educativo do homem tem o tempo de trabalho (alienado) como referência. Assim, ainda é quando ele é socializado na família e na educação formal, do ensino primário ao superior. O mundo da produção preocupa-se com o homem apenas durante o seu hiato de tempo de vida produtiva.

O mundo do trabalho supunha incluir todos os trabalhadores nesse mundo e não é isso que está acontecendo. Esse era, pelo menos, o pacto integrador dessa sociedade. No entanto, o tempo de todos não foi sendo transformado em tempo de trabalho e os que nele estão acompanham suas profundas mudanças e antevêem sua exclusão futura.

No mundo moderno e capitalista, o uso e o controle do tempo dos homens no trabalho social produtivo é um dado revelador de organização social. Nele, constituiu-se a jornada de trabalho e o tempo de trabalho passa a regular a vida dos sujeitos, controlando horas de sono e horas de prazer. Paul Lafargue, em seu panfleto O direito à preguiça foi um dos poucos que levantaram a voz e denunciaram os malefícios que adviriam da intensa reivindicação das massas proletárias por trabalho e mais trabalho. Já nos idos de 1880 alertava que “o direito ao trabalho” como princípio revolucionário traria conseqüências funestas no futuro.

A idéia do direito ao trabalho, trabalho este construído ao longo da sedimentação das relações de trabalho capitalistas que se sustenta em longas jornadas de trabalho, ainda está presente em todas as reivindicações sindicais no mundo inteiro. Parte-se, ainda, da concepção de que apenas trabalhando, na acepção explorada, obtêm-se as chaves que dão acesso ao socialmente produzido na sociedade. Mas, com o desenvolvimento das forças produtivas, os trabalhadores não percebem que insistindo nisso ajudam, mais rapidamente, a excluir do usufruto do patrimônio humano produzido, aqueles que ficam de fora. A distribuição da renda produzida além de desigual é expropriada na sua maior parte pela minoria e repartida apenas aos que provisoriamente permanecem em seus postos de trabalho, muitas vezes a qualquer preço e, outras vezes, não solidariamente.

Algumas reivindicações, que vêm ocorrendo no mundo do trabalho, sinalizam, às vezes, para uma disposição de mudança. As reivindicações por redução de jornada de trabalho, ao longo destes dois séculos, em defesa de melhores condições de vida no trabalho, ou para que haja trabalho para mais trabalhadores não é uma transformação, mas é um passo significativo. No entanto, a redução da jornada de trabalho como bandeira para a construção de um novo estilo de vida é ainda uma reivindicação tímida. O desemprego é um mecanismo de terror que impede que as massas, assalariadas ou não, possam aspirar uma vida de fruição, embora seja justamente na reivindicação do ócio, da preguiça, que o trabalhador pode resgatar sua dignidade e auto-respeito quando deixarão de lutar pelo direito ao trabalho e passarão a reivindicar a distribuição social da riqueza e o direito de fruir bens e prazeres. Por quê? Deve-se entender que todo tempo livre é tempo para o desenvolvimento livre. O tempo usurpado é apropriado pelo usurpador para seu próprio livre desenvolvimento.

Por outro lado, a verdadeira economia não está assentada sobre a redução da força de trabalho e sim sobre a redução do tempo de trabalho. O desenvolvimento das forças produtivas com o avanço do conhecimento e das tecnologias reduz os custos de produção a um mínimo. Então, reduzir o tempo de trabalho com o aumento das forças produtivas significa também aumentar as capacidades e os meios de prazer, de fruição. Assim é que economizar o tempo de trabalho é aumentar o tempo livre dos trabalhadores. Mas essa “economia de tempo” não tem aumentado o tempo livre do trabalhador, tem sim aumentado a jornada de trabalho dos que permanecem no mercado de trabalho e o medo do desemprego torna-os cegos, individualistas em alguns casos e corporativistas em muitos outros. O que deveria ser o enriquecimento pessoal para a fruição de um tempo livre descompromissado tornou-se mais um quesito na acirrada disputa por uma vaga no mercado de trabalho.

Essa consciência ainda está latente. Os limites deste texto não permitem que possamos aprofundar cada questão aqui levantada. Mas podemos refletir que, para romper com a velocidade vertiginosa imposta pela era da informação globalizada que destrói e constrói o ambiente sociocultural numa velocidade que não se ajusta ao tempo do indivíduo, mas o substitui por outro já sintonizado, comprometendo populações e seus etilos de vida, significa romper com o preconceito, arraigado em nossa cultura, de desprezo à preguiça, ao prazer, à criação, à felicidade.

Maria Izabel de Souza Lopes é socióloga e proprietária da Temperado no Tempo Beltramilopes Academia de Atividades Físicas Até 2005 atuou como docente do Centro de Ensino Superior de Ilhéus (BA) e da Universidade Estadual de Maringá (PR)

http://www.comciencia.br/comciencia/?section=8&edicao=30&id=354